terça-feira, 1 de setembro de 2009

Poesia e memórias de uma cirurgiã

O Estranho Hóspede


Estranho Desatino,
Crescendo desenfreado,
Desafiando o olho clínico,
Traiçoeiro, oculto, assombrado,
Reina sufocando,
Com suas garras de rapina.


Estranho hóspede aterrador,
Que brota de um acaso inocente,
Burlando a vigilância indolente,
Como quem rouba beijos inocentes,
Rompe vales e alagados,
De folículos sempre crescentes.

Extrapola a forma delineada
Transformando em quimérica flor
Estranha dedaleira maligna,
Arte de um deus devorador,
Dissipa e destroça a nau
Do fiel condutor

Doutor preste atenção,
Nessa caixa de segredos,
Abdomen globoso na sua mão,
Esconde um ladrão em degredo,
Fruto amargo e penoso,
Ovário imortalizado no medo

Câncer perdulário e destruidor,
Suga o rubor e o frescor
Da mocidade em flor.
Perdura atemporal,
Enquanto dure a seiva e o vigor


A criatura estremece
Suspeita como toda amante
Nem desconfia da desdita
Trama urdida às escondidas
Do ladrão incendiário
A lhe fenecer as forças mais aguerridas.

Deus permita o momento,
Do diagnóstico certeiro,
Resgatando nobre vida,
Qual a fecha do arqueiro,
Que busca o sonhado alvo,
E apaga o arruaceiro.

Este poema dediquei ao câncer de ovário, após operar uma paciente; impressionou-me demais a visão daquele tumor que crescia lenta mas agressivamente em uma jovem paciente de 25 anos.

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